segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O começo do Fiim


Maldizemos de tal maneira as encruzilhadas do caminho que, depois do fim, não nos lembramos de que foram elas as responsáveis pelas decisões, guinadas e vôos mais altivos da trajetória.

Em quatro anos de faculdade incontáveis foram as vezes que me deparei com caminhos bifurcados.

Este ou aquele, direita ou esquerda, aqui ou lá?

Indecisa por natureza sempre tive muitas dúvidas, mas nunca me arrependi de nenhuma direção escolhida, apenas fui em frente. Algumas escolhas foram tremendamente acertadas, outras representaram as maiores cagadas (com o perdão do termo) da minha vida, acadêmica, profissional ou pessoal.

E agora no último ano, nos últimos meses, dedicados (ou pelo menos deveriam) à preparação do Projeto Experimental, faço um balanço das minhas encruzilhadas. Algumas que me trouxeram infindáveis sorrisos. Outras me trouxeram dissabores que ainda amargam, ardem, talvez até machuquem.

Quando prestei (e passei) vestibular, tinha acabado de trocar de emprego. Ganhava muitíssimo bem para uma pirralha de 20 e poucos anos, viajava, bebia e comia do bom e do melhor. Mas precisava fazer faculdade. Consegui do Lula, o presidente aquele, uma bolsa integral em uma universidade particular, da qual eu não tinha o menor orgulho. Passei de 2° chamada na Federal e me vi diante da primeira das dezenas de encruzilhadas que viriam.

Ir para a federal ou ficar na particular?

Na federal faltariam materiais, professores, salas, cadeiras. Sobraria descaso, dor de cabeça e atrasos. Minha bolsa na particular estava garantida pelos próximos 4 anos. Na federal rolariam papos que, quiçá, um dia salvem o mundo, desafios e vida universitária de verdade. Na particular tinham as patricinhas e suas roupas de grife, as bolsas Channel e o intervalo parecia recreio do Ensino Médio.

Uma ligação: “Oi, sou o Rafael da UFMS, vc foi aprovada de segunda chamada, Jornalismo. Vai ficar com a vaga? Tem até amanhã para vir fazer matrícula”.

Peguei a bolsa e disse ao chefe: -Preciso voltar meu horário para matutino, desconta meu dia de hoje que tô de saída.

Fiz a matrícula. Só voltei à particular para devolver a bolsa, assim outro aluno poderia ocupar o meu lugar.

Sabia que era a decisão mais certa e a mais idiota. Meu diploma tem peso, queiram ou não. Foda-se (com perdão da palavra de novo) ministros e ucdbistas em geral.

Nasci jornalista, não foi a faculdade que me tornou uma. Está no sangue, no pensamento, na forma de agir, questionar, investigar querer saber. Tenho sede de gente, de suas histórias de seus casos. De justiça, de igualdade e de luta. Idealista sim, assim como “Anarquista, graças a Deus”.

E aí vieram a tormenta, o caos, a falta de identificação com os colegas de faculdade. Eles com 17 eu com 23. Já tinha tido 3 empregos, já tinha ganhado bem e trabalho muito. Ganhava meu dinheiro, pagava minhas contas, respondia pelos meus atos.

Pode parecer pouco, mas havia (e muitas vezes ainda há) um abismo entre nós. Eles ganhavam carros por passar no Vestibular e eu acordava às 4 da manhã para pegar o primeiro ônibus e ir trabalhar. As vezes assistia aula em período integral e ia dormir depois da meia noite, quando chegava da aula.

Escolhi os amigos errados que acabaram por me mostrar o quanto outros caminhos seriam muito mais legais. Mudei de amigos, mudei de caminho, tomei decisões. Os amigos novos mudaram, abandonaram decisões seguiram. Mudei de novo, traída por quem eu menos esperava e mais amava, mudei de novo. Escolhi caminhos que me aproximaram de uma vida acadêmica intensa, atuante e enriquecedora. As noitadas, bebedeiras e carnavais eu já havia dito aos 18.

Meu espírito é velho, eu sou velha.

Quatro anos de curso, três namorados, duas DP’s, um monte de exames. Tardes na faculdade, noites insone, risadas e lágrimas. Alguns eventos, nenhuma viagem (eu trabalho demais e ganho de menos), uma porção de broncas. Aulas, elogios e putiadas (desculpa outra vez) do jornalista que eu quero parecer quando crescer.

Levo dos quatro anos um amigo que escolhi como irmão, que tenho perto mesmo que nossos almoços estejam rareando, as conversas sempre intensas. Uma amiga que escolhi como irmã, sempre longe, mas nunca do lado de fora de mim. Professores cúmplices do meu crescimento profissional. A alma em paz, cúmplice do meu crescimento pessoal.

Eu sou um ser humano melhor, certamente.

O amor da minha vida, complemento de todo o resto.

Ainda falta o Projeto Experimental, essa é só uma parte da despedida do que começou a acabar. Talvez não seja a parte mais difícil, mas é certamente a mais complexa.

Agradeço aos professores que tornaram as pedras do caminho menos pontiagudas. Agradeço aos traidores que fizeram com quem eu me lembre que eu posso ser sempre melhor, apesar do fel. Agradeço ao amigo, que ensina todo dia que amor é respeito.

Foram os quatro anos mais enriquecedores, quatro anos de despertar, de enxergar o mundo com olhos jornalisticamente apaixonados e isso não depende de diploma, de aprovação e nem de fotos no orkut de sites de baladas. Só dependeu de mim, o tempo todo dependia de mim!

As minhas encruzilhadas, às vezes, só me parecem encruzilhadas depois que chego no final do caminho que escolhi. Como capricorniana tomo decisões sensatas, acertadas, pensadas e repensadas. Piso no seguro e levo comigo só quem vale a pena. Como escorpiana, exercito meu espírito transgressor, alucinado e inconsequente.

Talvez dê certo exatamente pelo inesperado da mistura de tantas misturas.


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