
Saí mais cedo do escritório, havia uma semana que programava isso. Da última vez resolvicompartilhar o momento e acabou dando merda. Dessa vez queria ir sozinha. Ia ser bom, ficar um tempo comigo mesma e reavaliar algumas situações. Pensar na vida enquanto olhava um trecho de água tóxica e familiar com um pôr do sol que durante o dia chegou aos 42°, mazelas de se morar no cerrado.
Parei no ponto de ônibus, ninguém para puxar conversa, menos mal. Ônibus lotado como é de praxe às 5 da tarde, desci na faculdade, atravessei o primeiro bloco, ninguém conhecido. Passei pela rua, entrei pelo enorme corredor, passei por um bloco em construção, pelos bancos, pelo quiosque que nunca tem nenhum refrigerante gelado, virei à direita. Passei pelo mural, virei à esquerda, passei pela antiga biblioteca. Virei de novo à direita e segui pelo corredor escuro da antiga reitoria, o piso nesse pedaço é mais liso, já que ali sempre havia limpeza, ao contrário do resto do campus. No final do corredor a luz do fim do dia e uma escada.
Desci e continei indo reto, até então ninguém sabia que eu estava ali. Fui pelo caminho de pedras que dava para as piscinas, cruzei com algumas capivaras e já podia ver ao fundo o Lago do Amor, lembra, já falei dele. Na piscina, crianças que aprendiam natação e vovós fazendo hidroginástica. A professora, acadêmica de educação física, me reconheceu. Levantou a mão e mandou um oi, retribuí sem me lembrar o nome dela, normal.
Subi as escadarias da arquibancada, não sem tropeçar e ter a sensação de que certamente ia despencar lá de cima, mas cheguei ao topo. De lá podia ter uma visão de todo o campus a minha frente e, virando de costas, podia ver o lago e ao fundo o pô do sol, que era o que eu havia ido fazer. O sol ainda estava alto, como se se negasse a ir dormir e parar de fritar as pessoas aqui embaixo. Diante da visão, o sorriso foi inevitável. Sentei, e fiquei olhando as risadas das crianças na água, que me trazia, inevitavelmente o som de uma voz familiar apaixonada por piscina, e comecei a soltar as amarras do balão dos pensamentos.
Fui repassando os acontecimentos dos últimos tempos. Amigos que nem eram amigos, amigos de amigos que vivem atrás de máscaras, amigas que começam a se descobrir em novos tempos, e amigos que continuam no mesmo lugar, graças a Deus.
Aos poucos a aula ia acabando, e as risadas diminuíam, mas aos meus ouvidos só havia o ruído do vento nas folhas, levantei. Em pé, apoiada na mureta lá de cima daarquibancada podia ver o sol, agora sim se despedindo. Apesar de tudo, eu permanecia nos trilhos, estou trabalhando, e sei que mesmo nessa turbulência tenho com quem contar. Quando abri os olhos, o sol já tingia todo o céu de vermelho e cor-de-rosa, magias da natureza que só quem já viu o pôr do sol no pantanal, pode entender. Mas havia alguém do meu lado, fiquei meio sem graça antes de me virar pro lado, já que eu tinha os olhos marejados. Até que ele falou comigo.
-E aí, como andam as coisas?
Sem saber porque, eu sentia uma tremenda confiança naquele cidadão. E respondi.
-Não vão da melhor forma, mas estão caminhando. Mais cedo ou mais tarde tudo se resolve.
-E o coração, ainda descompassado?
Me assutei com o comentário, isso era algo muito meu, sorri e respondi sem me dar conta do que falava.
- Ah, não é para ser agora. Quem sabe daqui uns anos estaremos prontos um para o outro, né?
Ele chegou mais perto, segurou minha mão e eu olhei para ele, não pude ver seu rosto que ficou contra a luz, mas a voz era imensamente familiar.
-Que bom que conseguiu chegar a isso sozinha e evitar maiores dores. São os dois de um mesmo caminho, e deverão caminhar juntos, mas não ainda. Ele não saberia o que fazer com seu desvelo e, você, não conseguiria optar por ele diante de tantos caminhos que ainda vão abrir-se diante dos teus olhos.
Me senti a vontade para, olhando adiante, deixar as lágrimas rolarem enquanto ele continuava.
-Experimente um novo corte de cabelo. Varie alguns horários. Faça por você algo que vem adiando faz tempo. Mude, saia do lugar. Quebre as amarras. Ele não sairá deste caminho, ele está na tua passagem. Aquiete o coração e os pensamento, dê tempo ao tempo. Deixe o Pai agir, e segue fazendo a tua parte.
Ele me dizia isso, sem citar nomes, mas na minha cabeça e no meu coração eu sabia do que ele falava, sabia de quem falava. Já havíamos tido aquela conversa, não assim, a luz do dia. Mas já havíamos nos falado. Eu agora lembrava o nome daquele homem que segurava a minha mão e sorria enquanto minhas lágrimas lavavam o sol. Eu estava mais leve quando só restavam os riscos laranja no céu já sem a bola de fogo aquecendo tudo. Levantei o corpo, sorri para ele. Fechei os olhos, agradeci por ter assistido o espetáculo tão bem acompanhada, quando abri os olhos estava novamente sozinha.
Procurei em volta, nada. Desci correndo a arquibancada, dei uma volta em torno das piscinas, fui até a beira do lago, nada. Da maneira como havia chegado, partiu. Mas agora, eu já sabia o que fazer. Estava então, fazendo a coisa certa. Pela primeira vez tenho essa certeza. Ainda que ela não vá durar muito, como todas as minhas certezas capricornianas, que esperam resultados.
Fiz o caminho de volta, pela antiga reitoria, o corredor, os bancos, o 1° bloco, atravessei a avenida, subi no ônibus e fui para casa pensando no que fazer com os cabelos.Ninguém me viu ali, naquele fim de tarde, é como se por 2 horas eu houvesse desaparecido do planeta. Como se eu sequer houvesse estado ali.
Em casa, tomei banho, deitei e dormi.Sonhei com um rosto conhecido que sorria para mim e em poucas palavras me avisava que estaríamos bem, apesar dos quilômetros incontáveis e do tempo que, apesar de querermos, ainda não era o nosso!
Parei no ponto de ônibus, ninguém para puxar conversa, menos mal. Ônibus lotado como é de praxe às 5 da tarde, desci na faculdade, atravessei o primeiro bloco, ninguém conhecido. Passei pela rua, entrei pelo enorme corredor, passei por um bloco em construção, pelos bancos, pelo quiosque que nunca tem nenhum refrigerante gelado, virei à direita. Passei pelo mural, virei à esquerda, passei pela antiga biblioteca. Virei de novo à direita e segui pelo corredor escuro da antiga reitoria, o piso nesse pedaço é mais liso, já que ali sempre havia limpeza, ao contrário do resto do campus. No final do corredor a luz do fim do dia e uma escada.
Desci e continei indo reto, até então ninguém sabia que eu estava ali. Fui pelo caminho de pedras que dava para as piscinas, cruzei com algumas capivaras e já podia ver ao fundo o Lago do Amor, lembra, já falei dele. Na piscina, crianças que aprendiam natação e vovós fazendo hidroginástica. A professora, acadêmica de educação física, me reconheceu. Levantou a mão e mandou um oi, retribuí sem me lembrar o nome dela, normal.
Subi as escadarias da arquibancada, não sem tropeçar e ter a sensação de que certamente ia despencar lá de cima, mas cheguei ao topo. De lá podia ter uma visão de todo o campus a minha frente e, virando de costas, podia ver o lago e ao fundo o pô do sol, que era o que eu havia ido fazer. O sol ainda estava alto, como se se negasse a ir dormir e parar de fritar as pessoas aqui embaixo. Diante da visão, o sorriso foi inevitável. Sentei, e fiquei olhando as risadas das crianças na água, que me trazia, inevitavelmente o som de uma voz familiar apaixonada por piscina, e comecei a soltar as amarras do balão dos pensamentos.
Fui repassando os acontecimentos dos últimos tempos. Amigos que nem eram amigos, amigos de amigos que vivem atrás de máscaras, amigas que começam a se descobrir em novos tempos, e amigos que continuam no mesmo lugar, graças a Deus.
Aos poucos a aula ia acabando, e as risadas diminuíam, mas aos meus ouvidos só havia o ruído do vento nas folhas, levantei. Em pé, apoiada na mureta lá de cima daarquibancada podia ver o sol, agora sim se despedindo. Apesar de tudo, eu permanecia nos trilhos, estou trabalhando, e sei que mesmo nessa turbulência tenho com quem contar. Quando abri os olhos, o sol já tingia todo o céu de vermelho e cor-de-rosa, magias da natureza que só quem já viu o pôr do sol no pantanal, pode entender. Mas havia alguém do meu lado, fiquei meio sem graça antes de me virar pro lado, já que eu tinha os olhos marejados. Até que ele falou comigo.
-E aí, como andam as coisas?
Sem saber porque, eu sentia uma tremenda confiança naquele cidadão. E respondi.
-Não vão da melhor forma, mas estão caminhando. Mais cedo ou mais tarde tudo se resolve.
-E o coração, ainda descompassado?
Me assutei com o comentário, isso era algo muito meu, sorri e respondi sem me dar conta do que falava.
- Ah, não é para ser agora. Quem sabe daqui uns anos estaremos prontos um para o outro, né?
Ele chegou mais perto, segurou minha mão e eu olhei para ele, não pude ver seu rosto que ficou contra a luz, mas a voz era imensamente familiar.
-Que bom que conseguiu chegar a isso sozinha e evitar maiores dores. São os dois de um mesmo caminho, e deverão caminhar juntos, mas não ainda. Ele não saberia o que fazer com seu desvelo e, você, não conseguiria optar por ele diante de tantos caminhos que ainda vão abrir-se diante dos teus olhos.
Me senti a vontade para, olhando adiante, deixar as lágrimas rolarem enquanto ele continuava.
-Experimente um novo corte de cabelo. Varie alguns horários. Faça por você algo que vem adiando faz tempo. Mude, saia do lugar. Quebre as amarras. Ele não sairá deste caminho, ele está na tua passagem. Aquiete o coração e os pensamento, dê tempo ao tempo. Deixe o Pai agir, e segue fazendo a tua parte.
Ele me dizia isso, sem citar nomes, mas na minha cabeça e no meu coração eu sabia do que ele falava, sabia de quem falava. Já havíamos tido aquela conversa, não assim, a luz do dia. Mas já havíamos nos falado. Eu agora lembrava o nome daquele homem que segurava a minha mão e sorria enquanto minhas lágrimas lavavam o sol. Eu estava mais leve quando só restavam os riscos laranja no céu já sem a bola de fogo aquecendo tudo. Levantei o corpo, sorri para ele. Fechei os olhos, agradeci por ter assistido o espetáculo tão bem acompanhada, quando abri os olhos estava novamente sozinha.
Procurei em volta, nada. Desci correndo a arquibancada, dei uma volta em torno das piscinas, fui até a beira do lago, nada. Da maneira como havia chegado, partiu. Mas agora, eu já sabia o que fazer. Estava então, fazendo a coisa certa. Pela primeira vez tenho essa certeza. Ainda que ela não vá durar muito, como todas as minhas certezas capricornianas, que esperam resultados.
Fiz o caminho de volta, pela antiga reitoria, o corredor, os bancos, o 1° bloco, atravessei a avenida, subi no ônibus e fui para casa pensando no que fazer com os cabelos.Ninguém me viu ali, naquele fim de tarde, é como se por 2 horas eu houvesse desaparecido do planeta. Como se eu sequer houvesse estado ali.

Em casa, tomei banho, deitei e dormi.Sonhei com um rosto conhecido que sorria para mim e em poucas palavras me avisava que estaríamos bem, apesar dos quilômetros incontáveis e do tempo que, apesar de querermos, ainda não era o nosso!
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