
O sol batia na janela quando os olhos começaram a abrir. O rosto enfiado no travesseiro ainda tinha restos de maquiagem da noite anterior, quem sabe depois dos 30 começaria a retirar a maquiagem antes de dormir, mas aos 26 ainda não. Virou de lado e pode ver a bagunça espalhada pelo chão, sapatos, roupas e alguns presentes, ao ver a mala sobre a cadeira, o sorriso foi imediato, era hoje!
Sabia que dali para frente as coisas mudariam todas, nada mais seria igual, quiçá parecido, mas seria bom. Adorava mudanças e essa, apesar de finamente planejada, estava acima de qualquer expectativa. Levantou com a mesma pressa de uma tartaruga, se arrastou até o chuveiro quente e ainda no banho pensou em tudo o que teria para fazer antes que o dia terminasse.
Banco, compras, contas, despedidas e um ou outro presente. Saiu de casa com uma banana e uma xícara de café no estômago, não precisa mais que isso. Desceu do ônibus na Rui Barbosa com a Barão, na frente do Correio de onde enviara o primeiro presente, o primeiro de uma lista vasta, de uma lista gostosa, recheada de chocolates e travessuras. Pela Barão seguiu até a 13 de Maio, entrou na loja de produtos de beleza e comprou o que faltava na mala. Enquanto andava tranquila conferindo os produtos dentro da sacola, pensava em cabelos enrolados, um par de olhos curiosos por trás dos óculos. Pensava em quantas tramas do destino tivera que vencer para esperar o dia de hoje.
Chegou à rua 14 de Julho, virou a esquerda (a da mão que não escreve) e desceu até a Praça Ary Coelho, monumento histórico que hoje pode ser resumida a vendedores ambulantes, pombos, ciganas e idosos que passam as horas em animadas partidas de cartas e damas. Atravessou a 15 de Novembro e entrou na livraria. Adorava ir ao sebo, porque os livros usados contam historias além daquelas que estão nas letras, teem a historia escondida dos antigos donos. Sabia o título que procurava, foi direto a prateleira. Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marquez e quantos não foram os anos de solidão até que esse dia chegasse, pensou enquanto sorria e pedia para que embrulhasse para presente.
Queria chegar como quem chega de uma longa viagem de alguns meses ou anos, carregada de presentes, daqueles que devem ser abertos pessoalmente e o obrigado deve ser dado preso nos laços que os abraços são capazes de formar. Já era quase hora do almoço, pela 14 desceu até a 7 de Setembro, comeu esfihas na Confeitaria Árabe e aproveitou para comprar alguns temperos, pão árabe e doces. Aquela formiga em tamanho gigante vai gostar de uma boa dose de açúcar. Dessa vez, açúcar e afeto.Andava por aquelas calçadas como se fosse a última vez, não tinha saudades antecipadas daquele lugar e nem planos para voltar antes de dezembro. Na praça pegou o 085 e foi para casa. Depois do banho terminou de arrumar as malas, sabia que alguns amigos iriam aparecer, mesmo ela tendo pedido para que não viessem. Dito e feito, garrafas de cerveja, chocolates, leite condensado e vinho, estava feita a despedida, o bota fora. Conversas, alguém senta na mala para poder fechá-la?
Foram todos juntos para o aeroporto, de repente o riso tornou-se pranto. É assim mesmo a vida, abrir mão de coisas caras ao coração para ganhar outras coisas, outras pessoas, outros sonhos. Beijos e abraços apertados, os olhos vermelhos das amigas a maldizerem a partida e a torcendo para que desse tudo certo. Sabia que elas iriam disputar para ver quem receberia a primeira ligação dizendo como tinha sido o encontro, o abraço, o beijo, a noite, a vida. E sabia para quem ligaria primeiro, caso desse tudo certo ou desse tudo errado.
Um voo com conexão em São Paulo, intervalo de quase 2 horas entre um voo e outro. Parecia até um teste. Alguns passageiros reclamavam da espera, da demora, do atraso. Queriam curtir logo a praia, amanhecer na princesinha do mar. Essa espera já não fazia diferença, esperou a vida toda. Chegaria ao destino à 1 da manhã, não era uma hora muito confortável pra se chegar ao Rio de Janeiro, mas a madrugada era a hora do amor, não podia haver horário melhor. Segunda decolagem, agora 50 minutos a separavam do destino e foi pensando em quantas coisas haviam se alterado para que pudesse estar ali.Pensou no amor que é como espuma de mar, precisa estar livre e ser solto para existir. Quando você olha o mar, vê a espuma que se forma nas ondas, mas se você quiser levar essa sensação para casa, não vai conseguir. Coloque um pouco da onda com a espuma em um pote, ela não estará mais lá. Assim é com o amor, ele existe e cresce em liberdade, jamais aprisionado. Quanto mais se solta mais cresce.
Chovia quando os pneus tocaram o chão da pista, crianças desacompanhadas e idosos desembarcam primeiro, por favor. Mais 10 minutos de espera e a comissária diz:
-A senhorita pode desembarcar agora.
-Posso?
-Sim, pode.
-Não sei se eu consigo, moça!
-Como senhora?
-Nada, deixa, tô descendo. Tchau.
-Obrigada por voar conosco.
Malas na esteira, portão de desembarque, abraços que ser perdem no ar, sorrisos, risadas, beijos que se encontram. Pais, crianças, mães, políticos, adoro aeroportos. Com os olhos, parada em meio a multidão procuro um par de olhos, olhos que procurem alguém conhecidamente desconhecida são os que devo achar. Falei que viria de branco, mas vim de azul.
E, de repente, sentado, suado, com as mãos entrelaçadas a brigar uma com a outra, aguardando no portão de desembarque errado, está lá. O par de olhos que eu buscava. Olhei, parei e sorri. Quando se virou para mim, sabia que seria ele. Não consegui me conter, lancei-me nos laços do seu abraço, apertei contra o peito o presente que a vida me mandou, ele me apertava e eu sentia o cheiro de cada poro do seu corpo, dos olhos lágrimas, da boca um oi tímido. E quando os olhos, finalmente se encontraram tão perto, não havia mais o que falar.
O tempo parou e a vida, então, era só respirar!

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